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Dança contemporânea com Lívia Bennet - mudando de lado

Uma coisa que fica evidente para qualquer pessoa que me vê em ação fotografando (um feedback que ouço com frequência pelo menos), é que eu estou me divertindo muito ali e completamente envolvida na proposta da vez.


E é verdade! Chego a me desconectar do meu corpo físico, das minhas necessidades mais básicas. É muito comum eu terminar uma sessão fotográfica e em poucos minutos, após sair deste estado que vou chamar de transe, me deparar com uma sede gigantesca e uma bexiga apertada que eu simplesmente não notei que me pedia já há algum tempo para ir ao banheiro. Dependendo do tempo que passo nesse transe, tenho que tomar cuidado ao sair pra não cair direto dentro de um buraco no estômago de quem nem lembra qual foi a última vez que comeu algo. Fora a roupa toda suja da tal que não teve pudor nenhum de deitar na lama só pra pegar aquele ângulo que às vezes nem dá certo.

Desculpe aí pelos detalhes sórdidos, mas quero falar de algo real que acontece e tenho certeza que não sou a única que performa desta maneira meio obsessiva até. Deve ser comum na vida de pessoas que vivem do que amam fazer ou fazem o que amam viver, sei lá, tudo se mistura.


Tudo uma bela suposição já que não pesquisei nada sobre isso e estou apenas brincando com o meu poder de abstração e repertório próprio enquanto seleciono algumas fotos do dia em que mudei de lado em uma das várias aulas de dança que já fiz na vida e passei de um corpo em movimento seguindo uma contagem, para uma espectadora chocada com o que estava vendo, com uma câmera na mão e em transe, não se esqueça.

Incrível como mudanças mínimas podem resultar em diferenças tão impactantes. Tenho intimidade com o mundo da dança há tantos anos e nunca tinha brincado de fotografar nada nessa linha. Houve algumas ameaças, mas acabaram nunca acontecendo de fato. Não era a hora. Não necessariamente entendo o porquê, mas acredito nisso!



Já reparou que o óbvio é sempre o que nos surpreende mais? Estava ali na minha frente o tempo todo e eu presa dentro da consciência de aluna bailarina, seguidora de regras, não notei a beleza espalhada por toda parte. Enquanto eu me incomodava com a falta de sincronia do grupo como um todo, individualmente movimentos muito sutis e cheios de graça estavam rolando e passando batido pelo meu olhar perfeccionista. Como se eu entrasse em tipos de transes diferentes quando danço e quando fotografo.


Bruna fotógrafa abriu um rombo na cabeça da Bruna bailarina com essa experiência. A fotógrafa é mais livre e consegue ver beleza em tudo, tudo mesmo, ela quer mais é improvisar e experimentar. Ela já sabe que o segredo é mudar de ângulo apenas. Já a bailarina é extremamente chata e autocrítica, quer seguir o passo a passo no tempo e ordens pré-estabelecidas. Agora, a Bruna escritora fica aqui tendo que mediar a relação entre as duas, três, quatro, cinco, nem seis mais! E sete, oito...


A oportunidade que tive de registrar a aula de contemporâneo da brilhante professora Lívia Bennet foi, antes de mais nada, um momento de reconciliação pra mim. Partes de mim estavam contando estórias muito diferentes e sem que eu percebesse, faltava consistência nos meus múltiplos discursos.


Esta reflexão tomou forma assim que cheguei em casa e fora de transe comecei a transferir as fotos da câmera pro computador. Tantos momentos lindos congelados no tempo e no espaço pra provar que a Bruna que dança estava um tanto quanto equivocada em sua compreensão rasa do significado da palavra errar. Do latim, ERRARE: perder-se, andar sem destino, cometer uma inadequação. O erro traz o novo. Que ignorância a dela!


Acho que estas imagens falam muito de liberdade, mas vão além da liberdade física de entrega do corpo ao movimento. Além também do meu próprio processo de alforria interna que já falei acima.


Repare nas imagens com contato entre os bailarinos e observe também os exercícios de



olho no olho.

Fique em silêncio e tente ouvir os diálogos que estão rolando ali. Gradualmente o volume vai aumentando e as mensagens ficando mais claras.



E se eu te disser que mexer o corpo todo livremente é ainda mais fácil do que esse exercício de manter os olhares conectados, você acredita?


Os olhos são portais para lugares muito profundos do nosso ser. Podemos entender muitas coisas só falando por olhar. Ficamos expostos e somos flagrados nas microexpressões que de micro não tem nada. É um exercício de muita intimidade e por isso mesmo intimida tanto.



É tão mais desafiador, que dançar fica bem simples. O corpo se destrava completamente já que a missão nessa hora é preservar nossos segredos, especialmente aqueles que estão tão bem guardados que nem a gente sabe do que se trata. Na mais ligeira fragilidade que sentimos nesse jogo, gritamos nossas feridas na cara do outro. Ainda no silêncio, isso gera uma reação e o jogo vai fluindo original e imprevisível. Uma delícia curativa.



Dá até para brincar de caça-palavras com essas fotos. Eu pelo menos já achei algumas!!!

V - A - I - o que? Nada a ver.


Adoro observar a extensão do corpo de cada bailarino. Aprender observando os diferentes estilos, sacadas e caminhos fora da nossa própria rota viciada. A técnica dando base pro corpo criar e falar o que bem entender. Um exercício de espiritualização muito antigo que tem origem há incontáveis eternidades. Ixi, muito além do que você pensou. Um número que você nem sabe falar o nome provavelmente. Eu tampouco. Talvez eu esteja me referindo à um tempo que você nem acredite que existiu de verdade, mas como disse Jung sobre acreditar em Deus, eu sei.



Existe dança típica de todas as tribos, culturas, povos, classes sociais, cores, volumes, tamanhos, não sei o termo mais correto que engloba tudo isso. Talvez, tudo dança seja uma boa síntese. Talvez não.


O lance é que aprender a dançar junto com todo o universo é uma chave muito importante pra transitar nessa viagem que é a vida propriamente dita. Perceber nosso impacto em tudo, do mínimo mais sutil ao grandão pesadão, difícil de ignorar.

Tem que ir encontrando o ritmo, decifrando a vibração de cada detalhe. E fazer escolhas, claro. Botar nosso laboratório alquímico para funcionar e caprichar nas fórmulas. Aliás, as fotos estão aí pra ilustrar o que estou dizendo e não correr o risco de não entenderem aonde quero chegar com isso tudo.





Na composição dessa experiência aqui todo mundo botou um pouquinho de cada. A química final ficou no ponto. Botamos uma dose cavalar de amor e fim. Fechar é bom, ótima desculpa pra começar tudo de novo.




Um alívio gigante pra esse tanto de Bruna com vontades tão distintas que carrego em mim. Com um medo gigante daquilo que ama fazer. Super paradoxal. Essa é a graça eu acho. Me pegar no pulo e me acolher em minhas fragilidades. Isso dentro de um ambiente muito seguro que é o da sala de dança. Tudo pode acontecer ali, basta você se abrir para experimentar seu corpo e descobrir que passando o além, tem dança também.



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